Aplausos

Julianna Coelho - julianna@ojornalnit.com.br

Por dentro do Museu Arqueológico de Niterói

O Museu de Arqueologia de Itaipu está instalado nas ruínas do antigo Recolhimento de Santa Teresa, instituição fundada em 1764, pelos padres Manuel Francisco da Costa e Manuel da Rocha com a finalidade de abrigar mulheres que pretendiam seguir a vida religiosa, órfãs, mulheres de "vida fácil", as que haviam engravidado ou mantido romances antes do matrimônio, viúvas e aquelas que ali eram instaladas por seus pais ou maridos quando estes saíam em viagem. O tempo de permanência na instituição era determinado pelo patriarca da família e a internação no estabelecimento requeria o pagamento de um dote pela família e a aprovação da Corte.

De acordo com a documentação acerca do prédio e de seu funcionamento através das Cartas de Visitas Pastorais de 1811/12, há relatos de que nas primeiras décadas do século XIX, as recolhidas e o estabelecimento já se encontravam em estado de "pobreza franciscana". Em 1833, o prédio estava vazio e o vigário João de Moraes e Silva institui o local como asilo para menores. A partir desta última informação não se tem mais documentos que mencionem o Recolhimento de Santa Teresa de Itaipu, havendo, portanto, um hiato na pesquisa histórica da instituição durante o restante do século XIX.

O século XX é marcado em termos da história do prédio por ocupações, disputas de posse, o tombamento do bem e a criação do Museu. Abandonado, o prédio foi ocupado por pescadores da região que passaram a habitá-lo e a utilizá-lo como espaço para tingimento das redes de pesca, além de haver ocorrido no entorno da muralha uma aglomeração de residências de pescadores.

Após o tombamento do antigo Recolhimento, as sucessivas correspondências expedidas por parte da Colônia de Pescadores da região demonstram uma preocupação com a conservação do monumento, solicitando ao Governo do Estado e à então Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional que retirassem dali a casa de motor da Companhia Territorial Itaipu, proprietária do terreno, para que o bem viesse a servir de sede à Colônia. A Cia. Territorial Itaipu, por sua vez, se dirige à DPHAN acusando o interventor da Colônia de ocupar indevidamente os remanescentes do Recolhimento, se propondo, inclusive, a restaurar o prédio sob orientação do Patrimônio Histórico.

Em 1968, inicia-se a obra de consolidação e conservação-restauração da capela e das paredes de rocha das muralhas, esta foi coordenada por Edgard Jacintho, chefe do Departamento de Conservação e Restauração da DPHAN. Assim, as aberturas em suas paredes foram vedadas e a desocupação de seu interior efetuada. Deste período adiante, tem início o projeto de criação de um museu a ser instalado no monumento.

Coleção

O acervo institucional do MAI é composto pela Coleção Hildo de Mello Ribeiro, 6 blocos testemunhos do Sambaqui de Camboinhas, uma canoa do século XIX e artefatos arqueológicos encontrados nas redondezas do Museu e para ele encaminhados por pessoas da região ou usuários da praia. A Coleção Hildo constitui o núcleo inicial do acervo institucional, esta coleção formou-se durante as décadas de 60 e 70 através de coleta no sítio arqueológico da Duna Grande realizada pelo arqueólogo-amador Hildo de Mello Ribeiro, também agente federal de fiscalização da pesca e morador de Itaipu.

A Coleção compõe-se de cerca de 980 objetos testemunhos de povos que habitaram a região antes do ano de 1500, dentre os quais: machados de pedra, pontas de ossos, ossada humana, lascas de quartzo, polidores, peças cerâmicas, conchas etc. A Coleção, porém, não é reconhecida como científica devido à forma como foi composta, já que a falta de método impossibilitou sua datação. Entretanto, ainda que suas peças não possuam uma datação acurada, elas não deixam de ser representantes de uma cultura coletora, caçadora e pescadora que um dia habitou a faixa litorânea da Região Oceânica de Niterói, se fazendo, assim, passível de ser exposta e trabalhada com fins didáticos

Os blocos testemunhos do Sambaqui de Camboinhas pertencentes ao Museu são frutos da Pesquisa de Salvamento em Itaipu, ocorrida em 1979, quando da construção da estrada de Camboinhas e do projeto de urbanização da orla de Itaipu, episódio que viria a deteriorar os sítios arqueológicos da Duna Pequena e do Sambaqui ali localizados. Tendo em vista a preservação deste valioso patrimônio, cuja datação aproxima-se de 7 mil anos aC, uma equipe de pesquisadores, coordenada pela Prof. Dr. Lina Kneip do Museu Nacional, foi enviada ao local com o intuito de reconstituir o quadro arqueológico e ecológico do litoral de Itaipu e estudar a adaptação de culturas caçadoras, pescadoras e coletoras litorâneas e a evolução do meio natural, obtendo como um dos resultados da pesquisa a preservação de blocos testemunhos do Sambaqui.

Além da Coleção Hildo e dos blocos testemunhos, o Museu conta, ainda, com uma Canoa de jequitibá, doada em 1979, pela colônia de pescadores local, cuja construção remonta ao século XIX. Até aquela data, ela fora utilizada como cocho para tingimento das redes de pesca e pertencera a Seu Vavá, um pescador da região. É comum, ainda hoje, a doação de objetos arqueológicos e de pesca encontrados pelas cercanias do Museu por moradores da colônia de pescadores.

Setor Educativo

Levando em consideração que os museus têm aprimorado suas atuações no campo educativo, buscando uma ação multidisciplinar e que colabore para a visão do patrimônio cultural como instrumento de transformação social, o Museu de Arqueologia de Itaipu desenvolve suas práticas educacionais a partir deste prisma, abordando em seus projetos os temas que lhe são concernentes. O histórico da ocupação humana na região e aspectos de cunho ambiental são assuntos elencados para figurar nas ações educativas do MAI e são abordados pelos seguintes projetos:

Caniço & Samburá

Projeto que tem como objetivo preparar alunos e professores, através de empréstimo de material elucidativo sobre os assuntos tratados pelo museu, visando estimular e aprimorar o aproveitamento dos alunos no momento da visita ao MAI. No museu, os alunos conhecerão a história do Recolhimento de Santa Teresa, visitarão a Duna Grande, sítio arqueológico que guarda vestígios dos sambaquieiros, além de conhecer a comunidade pesqueira e o entorno da região. Finalizando a visita, os alunos podem participar das seguintes oficinas:

Oficina de escavação - Simulação de escavação em dunas artificiais onde estão enterrados alguns objetos semelhantes àqueles encontrados em pesquisas arqueológicas, a fim de destacar a importância do processo de escavação para o ofício do arqueólogo;

Oficinas de pintura e desenho - Durante a visitação às ruínas e às exposições, os alunos são orientados a observar atenciosamente tudo que está sendo mostrado. Logo após, eles são organizados em um dos pátios das ruínas para reproduzir aquilo que mais chamou a atenção, usando papel, tinta, giz de cera etc. (Oficinas destinadas a alunos mais jovens)

Projeto de Educação Ambiental

O projeto visa abordar a problemática ambiental referente à conservação dos ecossistemas de Itaipu, bem como os recursos naturais lá explorados. Pretende-se estimular o espírito investigativo dos alunos participantes considerando os conhecimentos e costumes da comunidade local, além de estabelecer um estreitamento das relações entre o MAI, as instituições de ensino e a comunidade local, uma vez que as oficinas promoverão a reflexão sobre práticas que visam a conservação dos recursos naturais, da história e do patrimônio cultural local.

Com duração de aproximadamente seis meses, com um encontro semanal, o Projeto de Educação Ambiental é desenvolvido em diferentes etapas que permitem que os alunos entrem em contato com os conhecimentos desejados de forma gradual. Dentre as etapas do projeto, pode-se destacar a caminhada ao Morro das Andorinhas, para uma observação geral dos ecossistemas da região, seguida de atividades de análise dos mesmos in locus, além de coletas de espécimes pesqueiros na laguna, praia e mangue de Itaipu, entre outras.

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